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A procura de um maior bem-estar e de mais saúde, quer ao nível individual quer colectivo, bem como a consciência crescente acerca da preservação ambiental e do desenvolvimento sustentável, tem levado cada vez mais pessoas a adotar uma alimentação vegetariana (ovo-lacto-vegetariana ou vegana) ou, pelo menos, mais vegetariana. Razões de ordem ética, filosófica, religiosa, metafísica e/ou ecológica estão quase sempre por detrás desta opção. Mas, motivos estritamente científicos, que se baseiam em questões nutricionais e nos benefícios para a saúde, podem justificar por si só este tipo de regime.

A transição para este tipo de alimentação deve ser realizada com cautela, idealmente com acompanhamento nutricional especializado, de forma a garantir que a saúde e a qualidade de vida sejam mantidos ou optimizados. Ser vegetariano não significa apenas não comer carne e peixe. É preciso fazer combinações proporcionadas entre alimentos vegetais, como leguminosas, cereais, oleaginosas e sementes. Na essência, resgatar os alimentos base da nossa alimentação mediterrânica. Com frequência, na clínica e no dia-a-dia, encontro muitos vegetarianos “principiantes”, ou não, a ter uma dieta desproporcionada em alimentos derivados de animais, como os ovos e os lácteos ou com recurso exagerado a determinado alimentos, como o tofu, a soja ou o seitan (sendo estes últimos tendencialmente alergénicos para o organismo humano, sobretudo se consumidos de forma pouco moderada).

A Dieta vegetariana
Para a dieta vegetariana ou semi-vegetariana (quando há consumo ocasional de carne branca ou peixe) ser completa e equilibrada em termos nutricionais e energéticos, existem alguns nutrientes que merecem especial atenção, como as proteínas, a vitamina B12, a vitamina D, o ferro, o cálcio, o zinco, o iodo e o ómega 3 (ácido gordo essencial), que em défice podem, a longo prazo, trazer prejuízos graves à saúde. Importa contudo salientar que o mesmo pode acontecer em qualquer alimentação deficiente e monótona, tão típica na nossa sociedade. Exemplos muito frequentes de deficiências nutricionais na população omnívora, em todas as faixas etárias, relacionam-se com o magnésio, a vitamina B12, a vitamina D e o acentuado desequilíbrio na proporção ómega 6/ómega 3.
Segundo a posição da American Dietetic Association of Canada “dietas vegetarianas, incluindo veganas, corretamente planeadas são saudáveis, adequadas em termos nutricionais e podem proporcionar benefícios para a saúde, na prevenção e no tratamento de determinadas doenças. Bem planeada, a alimentação vegetariana é apropriada para indivíduos durante todas as fases do ciclo da vida, incluindo gravide, amamentação, infância, adolescência e também para atletas.”

Os alimentos vegetais
Os alimentos vegetais não apenas contêm vitaminas (carotenos, ácido ascórbico, tocoferóis, ácido fólico…) e minerais (cálcio, ferro, magnésio…), são excelentes fontes de fibras e antioxidantes, além de proporcionarem uma grande quantidade de compostos bioativos, muito dos quais ainda em estudo e por descobrir!
Sabemos que as principais doenças crónicas do séc. XXI, como a obesidade, a diabetes e a hipertensão, as doenças neurodegenerativas e o cancro, surgem em idades cada vez mais precoces e são consequência de regimes alimentares com alto teor de gordura saturada (de origem animal), hidrogenada/trans (de produtos industrializados) e de açucares, bem como pobres em vitaminas, minerais e fibras. Comer carne diariamente já foi símbolo de uma imagem de abundância, em tempos de carência e miséria, tornando-se um hábito que ainda hoje não é assim tão questionado. Por outro lado, permanecem ainda muitos mitos e preconceitos infundados acerca do vegetarianismo ou até de uma alimentação sem carne (mas com peixe).
De um ponto de vista mais crítico, há dois tipos de alimentos: os fermentativos e os putrefacientes, que basicamente são os de origem vegetal e os de origem animal, respetivamente. De facto, a carne, o peixe e os ovos utilizados na alimentação quotidiana, ao contrário dos vegetais, não são alimentos vivos, iniciando, na maioria das vezes, o seu processo de deterioração antes de serem expelidos pelo organismo e até mesmo antes de chegar ao prato. Além disso, a carne proveniente de animais criados de forma intensiva e exploratória, está impregnada de toxinas, muitas delas provenientes de emoções violentas, fruto de uma vida e uma morte não naturais.

Produção alimentar
Na produção alimentar em larga escala, os animais não dispõem de um espaço vital para se moverem e a ração que se lhes dá tem como finalidade a engorda rápida. Este facto gera maiores riscos de contaminação, por isso é necessário a vacinação contra as doenças mais comuns, a administração de antibióticos e muitas vezes de hormonas. Naturalmente, estes medicamentos veterinários passam para a carne e para os subprodutos animais, como os ovos (sobretudo os provenientes de galinhas de aviário) e os lácteos.
As rações atuais utilizadas na produção intensiva de animais são constituídas por restos de animais e farinhas de soja e milho (muito ricas em ácidos gordos ómega 6, pró-inflamatórios). Mais prejudiciais ainda são os produtos de charcutaria (especialmente os mais comerciais), aos quais são adicionados conservantes, como os nitratos, que quando combinados com as aminas de carne (constituintes dos aminoácidos), originam as nitrosaminas e os N-nitratos, substâncias que estão implicadas no risco de cancro, sobretudo do estômago e intestino.
O consumo de carne não é necessariamente prejudicial para a saúde, mas sim a elevada quantidade e frequência na dieta e ainda se não for proveniente de animais criados ao ar livre, alimentados a pasto e com respeito pelo seu ciclo natural.

Saúde para todos e para o planeta
De forma resumida, uma dieta vegetariana (ou mais vegetariana que omnívora) tem implicações muito positivas na saúde, ao nível do funcionamento gastrointestinal, na sociedade com um menor valor calórico, na redução do risco de obesidade e doenças cardiovasculares, em alguns tipos de cancro e noutras doenças crónicas degenerativas.
Num mundo onde os alimentos são originários de uma produção cada vez mais manipulada, sacrificando e explorando tantos animais e recursos do nosso meios ambiente, onde ao mesmo tempo as doenças crónicas e degenerativas se tornam uma epidemia, vale a pena considerar seriamente soluções alternativas, benéficas para a saúde de todos e do planeta em que vivemos.

Lea Caniço, Nutricionista.